Por que o mascote do Flamengo é o Urubu?

O mascote do Flamengo é o urubu porque a própria torcida transformou em símbolo um apelido criado por rivais para ofendê-la. O marco dessa virada foi 1º de junho de 1969, quando torcedores rubro-negros soltaram um urubu com a bandeira do clube presa às patas antes da vitória de 2 a 1 sobre o Botafogo, no Maracanã.

A seguir, o leitor encontra a origem pejorativa do apelido, a ficha daquele jogo do Campeonato Carioca, a forma como as arquibancadas passaram a cantar o nome da ave com orgulho e os lugares onde o urubu aparece hoje na vida do clube, do centro de treinamento ao zoológico do Rio.

Resumo rápido sobre o urubu do Flamengo

  • Origem do apelido: torcidas adversárias chamavam os rubro-negros de “urubus” como insulto, com conotação racista e de classe.
  • Alvo da ofensa: a massa de torcedores negros e pobres, característica da torcida do Flamengo já na metade do século XX.
  • Data da virada: 1º de junho de 1969, um domingo, no Maracanã. Algumas fontes registram 31 de maio.
  • Adversário: Botafogo, então bicampeão carioca de 1967 e 1968.
  • Resultado: Flamengo 2 a 1, com gols de Arílson e Doval.
  • O gesto: um urubu vivo, com uma bandeira rubro-negra amarrada às patas, foi solto sobre o gramado antes da partida.
  • Consequência: a ave passou a ser vista como amuleto e substituiu o Popeye como mascote.
  • Hoje: o urubu dá nome ao Ninho do Urubu, aparece em produtos oficiais e foi redesenhado no rebranding do clube em 2026.

Um apelido que nasceu como ofensa

Desde as primeiras décadas do futebol carioca, o Flamengo se firmou como o clube de maior apelo popular do Rio de Janeiro. Sua torcida cresceu entre trabalhadores, moradores dos subúrbios e das favelas, com grande presença de pessoas negras. Foi esse perfil que os rivais escolheram como alvo. Chamar o rubro-negro de “urubu” associava a cor da pele de boa parte da torcida à plumagem preta de uma ave ligada, no imaginário popular, à sujeira e à carniça.

O registro mais comum aponta que o termo ganhou força nos anos 1960, gritado por torcedores de outros clubes nos clássicos. Há versões sobre qual torcida usava mais o apelido: parte da imprensa cita os tricolores, outra parte fala de forma genérica em adversários. Em qualquer das versões, o sentido era o mesmo, e durante anos os flamenguistas rejeitaram a palavra.

A ave escolhida como insulto é o urubu-de-cabeça-preta, espécie comum no Rio de Janeiro e em boa parte do Brasil. Ele vive em bandos, plana em correntes de ar quente e se alimenta sobretudo de animais mortos e restos de comida, o que explica a fama de bicho ligado ao lixo. Biólogos lembram que essa dieta tem papel sanitário importante, porque elimina carcaças que poderiam espalhar doenças. Para os rivais de 1960, no entanto, só interessava a imagem negativa, somada à cor preta das penas.

O caso não é isolado no futebol brasileiro. Outros apelidos nasceram como provocação e acabaram adotados pelas próprias torcidas, mas poucos carregavam uma carga racial tão explícita quanto o do Flamengo. Por isso a virada de 1969 costuma ser lembrada como um gesto de resposta, e não apenas como uma brincadeira de arquibancada.

O domingo de 1º de junho de 1969 no Maracanã

O clássico contra o Botafogo valia pela terceira rodada do returno do Campeonato Carioca de 1969. O adversário vivia grande fase, com o bicampeonato estadual recém-conquistado, e o Flamengo vinha de uma longa sequência sem vencer o rival, segundo relatos da época.

Foi nesse ambiente que um grupo de jovens flamenguistas entrou no estádio com um urubu vivo. Com uma bandeira do clube amarrada às patas, a ave foi solta e sobrevoou o campo até pousar no gramado. A arquibancada reagiu com o coro “é urubu, é urubu”, desta vez em tom de festa. Dentro de campo, Arílson abriu o placar aos 9 minutos, Doval ampliou aos 23 e Paulo César Lima descontou de pênalti no segundo tempo. A vitória fez o episódio ganhar ares de sinal de sorte.

ItemInformação
Data1º de junho de 1969 (há registros com 31 de maio)
CompetiçãoCampeonato Carioca de 1969, returno
LocalEstádio do Maracanã, Rio de Janeiro
PlacarFlamengo 2 x 1 Botafogo
Gols do FlamengoArílson, aos 9 minutos, e Doval, aos 23
Gol do BotafogoPaulo César Lima, de pênalti, no segundo tempo
ContextoBotafogo era o bicampeão carioca de 1967 e 1968
Fato marcanteurubu solto antes da partida com bandeira rubro-negra presa às patas

Do insulto ao grito de arquibancada

A força do episódio está na inversão de sentido. Ao levar o próprio urubu ao estádio, a torcida esvaziou a ofensa: se o rival chamava o flamenguista de urubu, o flamenguista passava a gritar a palavra mais alto. O Museu Flamengo descreve o processo como uma apropriação do termo ofensivo, que passou a representar garra e resistência.

Há relatos de que a experiência se repetiu nos jogos seguintes, com novas aves levadas às arquibancadas. A troca de mascote não dependeu de decisão de diretoria nem de concurso. Foi a torcida que escolheu o símbolo, e a imprensa esportiva ajudou a fixá-lo. O cartunista Henfil, flamenguista declarado, que começara a publicar no Jornal dos Sports do Rio poucos meses antes, fez do urubu seu personagem mais conhecido e ajudou a espalhar a nova imagem.

Com o tempo, a palavra deixou de ser problema e virou sinônimo de flamenguista. Expressões como “Nação Urubu” e “urubuzada” se tornaram comuns em faixas, cantos e redes sociais. O racismo que deu origem ao apelido, porém, segue lembrado sempre que a história é contada, justamente para explicar o peso da escolha feita pela torcida.

O urubu hoje: Ninho, zoológico e identidade

O centro de treinamento George Helal, em Vargem Grande, é conhecido em todo o país como Ninho do Urubu, nome usado pela imprensa, pelos torcedores e pelo próprio clube. A ave também está nas lojas oficiais, em uniformes de treino, em campanhas publicitárias e nas fantasias que circulam pelo Maracanã em dias de jogo.

Em novembro de 2011, a então presidente Patricia Amorim levou o clube a apadrinhar os quatro urubus que viviam no viveiro do Zoológico do Rio, num custo mensal dividido entre dirigentes. Em 2026, o projeto de rebranding conduzido pela agência Ana Couto manteve escudos e monograma, mas redesenhou o urubu e lhe deu mais destaque na comunicação e nos produtos, sinal de que o símbolo nascido na arquibancada virou peça central da marca.

Perguntas frequentes sobre o urubu do Flamengo

Por que chamavam os torcedores do Flamengo de urubu?

O apelido era usado por torcidas rivais como ofensa racista e de classe, dirigida à grande quantidade de torcedores negros e pobres do clube. A associação com uma ave preta, ligada à carniça no imaginário popular, tinha a intenção de humilhar.

Em que jogo o urubu foi solto no Maracanã?

Na vitória do Flamengo por 2 a 1 sobre o Botafogo, pelo Campeonato Carioca de 1969. A data mais citada é 1º de junho de 1969, embora algumas fontes registrem 31 de maio.

Quem levou o urubu ao estádio?

Um grupo de jovens torcedores rubro-negros. A ave entrou no Maracanã com uma bandeira do Flamengo presa às patas e foi solta antes de a bola rolar.

O urubu é o mascote oficial do Flamengo?

Sim. Desde 1969 ele ocupa o lugar que antes era do Popeye e, ao longo das décadas, ganhou versões oficiais desenhadas pelo clube, usadas em jogos, produtos e campanhas.

Por que o CT do Flamengo se chama Ninho do Urubu?

O apelido do centro de treinamento George Helal, em Vargem Grande, faz referência direta ao mascote. O nome se popularizou entre torcedores e jornalistas e passou a ser usado também pelo clube.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.